português español english

Notícias

< Voltar

18 Dez 2017Perdas e danos

Por Alessandra Guardia

Em março o IBGE divulgou a variação do PIB brasileiro em 2012. Contrariando as expectativas do BC de anos anteriores, houve crescimento de apenas 0,9% em relação a 2011. O indicador é frequentemente utilizado nas premissas de projeção de crescimento do faturamento das empresas que são objeto de avaliação por fluxo de caixa descontado (rentabilidade futura).

O valor de mercado das empresas do varejo, setor afetado diretamente por tais premissas, é fortemente influenciado pela expectativa de crescimento do PIB. Portanto, um PIB mais baixo do que o esperado pode impactar diretamente o valor de seus ativos.

Com as mudanças das práticas contábeis no Brasil, passou a ser obrigatório que as empresas avaliem anualmente se os seus ativos sofreram desvalorização, inclusive as empresas adquiridas (investimento e ágio, conhecido por goodwill), conforme o CPC 1 — Redução no Valor Recuperável de Ativos, emitido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Esse anúncio, entre outros aspectos, menciona que o impacto de mudanças no cenário macroeconômico deve ser incorporado à avaliação dos negócios em geral.

Havendo mudança no valor dos ativos para patamares inferiores aos registrados na contabilidade, perdas contábeis devem ser reconhecidas, a partir do teste de valor conhecido como impairment. Recentemente, por exemplo, foi divulgada notícia de uma gigante internacional do setor de mineração, cujo impairment teve como consequência a demissão do presidente da empresa.

A deterioração do cenário macroeconômico tem chamado a atenção de autoridades internacionais para os reflexos esperados nas demonstrações financeiras das empresas. A ESMA (European Securities and Markets Authority) publicou um longo estudo sobre o reconhecimento de perdas contábeis por parte das empresas na zona do euro. A pesquisa mostra que poucas empresas têm realizado baixas contábeis, mesmo atravessando a pior crise financeira das últimas décadas. Dada a deterioração dos indicadores macroeconômicos da região, não seria de esperar que os ativos inseridos no mercado europeu gerassem os mesmos fluxos econômicos projetados antes de crise.

Tão difícil quanto prever os rumos da economia é acertar as projeções financeiras. O período em que o Brasil apresentou maior quantidade de transações (2011-2012) coincide com o período no qual as expectativas de crescimento do PIB são superiores ao crescimento de fato ocorrido. Provavelmente, parte das empresas envolvidas nessas transações — que são impactadas pelo crescimento do PIB — poderá ter que realizar o impairment nos respectivos investimentos.

A correta aplicação dos requisitos descritos no CPC 1 tomará a cena nos próximos demonstrações financeiros. As regras brasileiras se baseiam nos padrões e pronunciamentos dos IFRS (International Financial Reporting Standards), e as exigências regulatórias deverão se alinhar com as de países que tradicionalmente adotam esses padrões. O maior rigor na Europa e os indicadores de possíveis problemas para as empresas brasileiras, tais como a piora das perspectivas macroeconômicas, podem levar a questionamentos das autoridades locais, bem como à exigência de maior detalhamento das avaliações suporte aos testes de impairment.

A cooperação entre os profissionais especialistas (avaliadores, contadores e auditores) tem se intensificado. Isso é importante, pois a necessidade de maior acompanhamento e do emprego de melhores técnicas de avaliação parece ser a tendência para os próximos anos no Brasil e no mundo.

 

Alessandra Guardia é diretora da Hirashima & Associados. Colaboraram César Luz e Rodolfo Zeidler, gerente sênior e supervisor de finanças corporativas da mesma consultoria.

 

< Voltar